terça-feira, novembro 23, 2004


A alergia

De pequenino tudo tentaram para o tentar. Muitos e belíssimos livros infantis habitavam o seu quarto de criança. Muita história delirante o adormeceu, com dramatizações carregadinhas de onomapoteico suspense. Muita identificação subliminar com as suas aventuras favoritas encantava o dia a dia... e agoooora, será que o herói de meio palmo vai conseguir escapar dos braços da ama pegajosa e salvar o cachorro Pimpão da vizinha maléfica que o fechou na garagem?

Debalde: as letras não o preenchiam e só aos nove anos aprendeu a juntá-las.

Já rapazote, a aversão manifestava-se com proporcional intensidade: nem mosqueteiros, nem Verne, nem - oh desespero! – a bd mais rafeira lhe picavam o fastio. Nas prateleiras, bisonhos, os volumes suspiravam de abandono.

Terminou o secundário - com razoável aproveitamento e boa verbalização - sem alguma vez ler um livro. Gesta heróica para que muito contribuíram familiares palavrosos, que lhe implantavam cultura por via endoauricular. Sim, que ele nunca havia passado da página 44 de Os Maias, mas discursava fluentemente sobre a influência do trauma do registo de mãe incógnita na obra de Eça...

Como na faculdade ler é actividade extra-curricular, a vida universitária sorriu-lhe e a carreira profissional floresceu, radiosa. Exemplo vivo da superação da adversidade de uma alergia tão intestina e virulenta, é hoje um brilhante gestor, com absoluto domínio sobre as letras. Ou antes, sobre as livranças.